sábado, 25 de agosto de 2012

Capítulo 03

- Do not look down -
Não olhe para baixo


Libertei-o das cordas.
- Onde está a Ashley? - pôs a mão na barriga, que estava encharcada de sangue, devido a facada que o assassino lhe dera.
- Não sei. Você consegue andar?
- Acho que sim. - ele fez uma careta e abriu a porta, deixando-me passar apoiando o braço de Freddy em meu ombro.
Saímos dali, enfrentando novamente a escuridão que brotava. Caminhamos sem rumo, mas nossa intenção era nos distanciar daquele lugar.
Minutos depois, Freddy abrira os olhos lentamente, dando-me um alívio.
- Você está bem? - perguntei aflita
- Estou.
- O assassino só deu algumas pancadas nele. - Liam resmungou. - Mas em mim, foi uma horrível facada. Não entendo.
- Não é hora para isso. - Freddy retrucou - Agradeça por estar vivo.
- Vamos, - falei tentando quebrar aquele clima que se formou - Deve ter alguma saída por aqui.

[...]

Já estava amanhecendo quando chegamos a uma parte ainda desconhecida da floresta. Havia uma ponte velha, que balançava constantemente, de acordo com o vento.
Ela ligava dois montes, mas a travessia podia ser perigosa.
Freddy pôs um dos pés nas frágeis madeiras que revestiam a ponte, que logo produziu um som estridente de madeira gasta e antiga.
- Vamos atravessar um de cada vez. - ele disse - A ponte não é muito confiável para todos nós juntos.
- E o que você entende sobre isso? - Liam disse, sarcasticamente.
- Por favor né - Freddy franziu o cenho. - Deixa de ser criança pelo menos uma vez na sua vida.
Liam fitou-o, se aproximando da ponte;
- Vou primeiro.
Freddy suspirou enquanto vasculhava a única mochila que sobrara.
- Não sei como a Ashley aguentava esse cara.
- Freddy... Se coloque no lugar dele. - falei, enquanto observava Liam atravessar ponte. - Você também estaria assim, atordoado, se eu tivesse... morta.
Tive dificuldade para falar isso. Com certeza Ashley estava morta, e por isso meu coração estremecia. Minha melhor amiga, e única. Sentirei falta de falar com ela no telefone, de passar um dia inteiro dentro do shopping, de rir quando ela falava asneiras... Nada disso eu teria de volta, ficaria apenas as lembranças, as fotos e a saudade.
- Eu sei que ele deve está mal, e justamente por isso, devia esquecer as diferenças.
Quando Liam chegou do outro lado, era a minha vez.
- Passos leves, ok? - ele deu-me um beijo rápido, segurando minha mão. - Não olhe para baixo.
Ele não devia ter dito isso. Nunca quis que alguém me disesse isso. Exatamente como os filmes, quando falam essa frase, a pessoa vai olhar para baixo sim. Como se fosse uma atração, puxando seu olhar.


Após dar alguns passos, o medo e a adrenalina me dominaram.
- Muito bem Kate. - Freddy dizia - Vai devagar. Não precisa ter medo, a ponte aguenta o peso de uma pessoa.
Fechei os olhos por míseros segundos, para diminuir minha aflição. Mas eu teria de estar com os olhos bem abertos, qualquer passo errado, eu escorregaria.
Quando faltava apenas alguns metros, assustei-me com a velocidade que havia caído uma das madeiras que constituíam a ponte. Minha respiração acelerou ainda mais.
- Calma Kate, é só dar um passo maior.
Minhas pernas tremiam, eu sequer conseguia me mover. Fitei o "buraco" que se formara ali. Lá em baixo, passava uma pequena corrente de água, quase invisível para visualizar. Isso provava o quanto aquilo era alto, e o estrago da queda, resultaria em uma morte rápida.
O vento assobiou forte, fazendo a ponte balançar mais. Apertei mais firme as finas cordas, quando ouvi Liam gritar.
- Venha Kate, rápido! - estendeu a mão para mim.
Olhei para trás, e vi o olhar desesperado de Freddy, que também gritou para que eu prosseguisse. Minha mente queria digerir o que estava acontecendo, mas já posso ter uma ideia... E não é nada bom.
Continuei minha travessia, até está a poucos centímetros de Liam. Antes que eu segurasse sua mão, senti a ponte ceder. Andei mais rápido, minhas passadas tornaram-se pesadas, e isso não ajudaria nada, pelo contrário.
Pude sentir os cabos de aço desprendendo-se da rocha. A ponte balançava mais e mais, e as madeiras inclinavam-se, não sobrando espaço para meus pés.
Freddy e Liam gritavam, mas nada podiam fazer. Com as mãos agarradas nas cordas, a parte de baixo despencou, literalmente. Não havia mais nenhum apoio, e eu balançava os pés no vácuo. Era o meu fim.


- Vamos lá, você consegue. Alcançe a minha mão! - Liam se debruçara sobre a rocha, chegando mais próximo a mim. Meu desespero era gigantesco, e eu sequer conseguia alcançá-lo. E com muito esforço, minha mão chegou a dele, que estava gélida e molhada.
Depois de muitas tentativas falhas de puxar-me para cima, Liam finalmente conseguiu. Abracei-o fortemente, espremendo os olhos. Eu podia ouvir seu batimento acelerado.
Mas abri os olhos rapidamente quando lembrei-me de Freddy. Olhei para o outro lado, e o vi com as duas mãos sobre a cabeça.
- Ah meu deus. - falei enquanto Liam me puxava para longe da borda. - O que vamos fazer agora Liam?
Ele engoliu em seco e não respondeu. Não havia nada para se fazer. Aquela ponte era o único meio de se atravessar. Não teria jeito de voltar, ou passar de um lado para o outro.
- Freddy deve saber outro local para atravessar. - Liam disse tentando me acalmar.
Ele deu alguns passos, e chamou o nome de Freddy.
- Não tem outro local para passar? - gritou pondo as mãos ao redor da boca.
- O único jeito é descer de rapel, - Freddy gritou - Depois escalar pelo outro lado.
- Está vendo, sempre tem outro jeito - Liam disse-me.
- Vocês terão que continuar, - disse Freddy, fazendo gestos - Alcançarei vocês...
Liam assentiu.
- Não Liam, - franzi o cenho - Vamos esperar por ele, aqui.
Vendo que não tínhamos ido, Freddy gritou mais uma vez.
- O que estão esperando? Vão andando.
Não queria deixá-lo sozinho. Mas Liam tinha receio de que algo acontecesse conosco, e puxou-me para saírmos dali.
Fiquei olhando para trás, até meus olhos não alcançarem mais. Estava cada vez mais distante dali, e de Freddy também.




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